Design pelo design?

O design crítico pode ser considerado como uma metodologia que coloca em primeiro plano a ética da prática do mesmo, cuja ideia central reside nas implicações dos objectos em termos sociais, políticos e culturais. O designer detém a responsabilidade da substância, qualidade e efeito sobre a sociedade, a política não é opcional, revelando-se assim, parte integral do seu trabalho. Esta profissão é uma oportunidade de questionar sobre política, ideologia e criticismo, deve ser capaz de debater e examinar abertamente ideias.
Robin Fior (1935-2012) iniciou a sua actividade profissional em Inglaterra através da associação com grupos políticos de esquerda, onde viveu até 1973. Posteriormente, rumou até Portugal onde habitou até ao seu falecimento. Constata-se como um exemplo paradigmático da dimensão social e politica que o design pode desempenhar:
”O desenvolvimento organizacional destes grupos, alguns deles de elite, – como a Nova Esquerda, para a qual Fior produziu os seus primeiros projectos gráficos, ainda em 1957 –, contribuíram para a regeneração do socialismo e da ortodoxia marxista e para criar uma esquerda mais humana em Inglaterra, com a qual Robin se identificava totalmente.”[1]
Uma questão a ser referida é que os trabalhos para estas instituições não foram remunerados, no entanto, permitiu a Fior adquirir profissionalismo e a construir a sua linguagem, combinando a influência do Construtivismo e o Estilo Tipográfico Internacional. Motivando-o o desejo de encontrar um discurso revolucionário em termos de design.
Portanto, o desprendimento a questões capitais e à execução de um trabalho capaz de promover a educação, cultura e uma maior consciência do mundo, remete-nos para os ideais expressos no manifesto “First Things First”, datado em 1964. Onde vários agentes culturais denunciam a crença da publicidade ser a forma mais lucrativa e própria para utilizar as suas competências, o esforço das pessoas que trabalham nesta indústria é desperdiçado nas necessidades triviais que contribuem pouco ou nada para a prosperidade nacional. No entanto, não está em causa a abolição total da publicidade ao consumidor, algo que não é viável. A proposta de solucionar esta problemática reside em inverter as propriedades em favor das formas mais úteis e duradouras de comunicação e ao partilhar experiências e opiniões com os interessados. Décadas mais tarde, no início do séc. XXI, o manifesto com o mesmo nome foi novamente subscrito, mencionando os veículos responsáveis pela ideia da publicidade como sendo a mais lucrativa, professores e o próprio mercado e a consciência de que o trabalho comercial abrange as despesas do trabalhador, tendo de se submeter às exigências das empresas.
Assim, esta dicotomia entre a obtenção de lucro e a elaboração de um discurso despromovido dessa preocupação é um assunto inerente tanto no design como nas artes plásticas e na ideia de trabalho imaterial de Maurizio Lazzarato.
“(…) produz directamente no interior do mundo do trabalho – para libertá-lo do poder parasitário de todos os patrões e para desenvolver esta grande potência de cooperação do trabalho imaterial, que constitui a qualidade (explorada) da nossa existência.”[2]
O mercado exige cada vez mais a flexibilidade do próprio designer em corresponder a expectativas comerciais em detrimento das suas e é essa questão que deve ser reflectida.
[1] BOM, Maria João, A praxis e a teoria no design gráfico de Robin Fior, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, 2013, pág.87.
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